01. Como se tornou Humberto Delgado líder da oposição em Portugal?

Como se tornou Humberto Delgado líder da oposição em Portugal?

Marcello Caetano conta nas suas Memórias, referentes à época em que foi ministro de Salazar, que este reagiu aparentemente sem preocupação aos boatos que no início de 1958 começaram a surgir sobre Humberto Delgado. Acabado de regressar de Washington, onde tinha sido representante de Portugal na NATO, Delgado manifestava intenções de se apresentar, nesse ano, como candidato independente à Presidência da República. A tranquilidade do habitualmente desconfiado Presidente do Conselho baseava-se no longo passado do general como servidor do regime.

Humberto Delgado nasceu em 1906. Era por isso um jovem oficial quando se dá o golpe de estado de 28 de Maio de 1926, no qual participa. Torna-se logo a seguir um entusiástico apoiante do Estado Novo, tendo publicado em 1933 um livro, Da Pulhice do Homo sapiens, onde fazia rasgados elogios ao “grande homem Salazar”.

Era verdade que, por vezes, Salazar recebia dele cartas demasiado desabridas para aquilo que era normal nos seus colaboradores. Como esta, em 1946, quando ainda nem era general: “Ora eu sirvo incontestavelmente V. Exa. com respeito, alta admiração […] e até dedicação pessoal apesar da quase permanente frieza de V. Exa.; mas confesso que não sei servir com medo ou subserviência […].
General Humberto Delgado

Contudo Delgado tinha sido dos primeiros dirigentes da Legião Portuguesa e comissário-adjunto da Mocidade Portuguesa, além de que desempenhara missões importantes, por exemplo como representante nas negociações secretas para a cedência de bases nos Açores ao Reino Unido. Tinha estado até na origem da criação da TAP e era nessa altura diretor-geral da Aviação Civil. Aliás, recebera pouco antes, em novembro de 1957, a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis.

Os avisos de Caetano tinham no entanto razão de ser, como iria provar-se nos sete anos seguintes. O General Delgado tinha regressado de Washington transformado, era um homem muito diferente daquele que Salazar conhecera e com quem tinha trabalhado.

A personalidade era a mesma, impetuoso, por vezes insensato, como veio a provar-se no futuro, mas agora o seu fascínio deslocara-se do salazarismo, que lhe parecia não conseguir vencer o atraso e se ter deixado dominar pela rotina (“Salazar está velho, está gasto, está fora de moda!”, confidencia a Caetano), para o modelo de sociedade que o tinha seduzido nos EUA (como desabafou Salazar ao seu ministro da Defesa, Delgado “voltou estragado dos EUA”). Depois da permanência nos EUA desenvolveu um projeto: reformar os Estado Novo substituindo Salazar.

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