10. Como foram mortos Humberto Delgado e Arajaryr Campos?

Como foram mortos Humberto Delgado e Arajaryr Campos?

Para responder a esta pergunta podemos partir dos depoimento das principais testemunhas deste crime (porque, independentemente do modo e das causas, não restam dúvidas de que de um crime se tratou). 
Ora as principais testemunhas são neste caso os próprios membros da brigada da polícia política portuguesa que se deslocou a Badajoz, mais exatamente dos depoimentos de três agentes: Rosa Casaco, que chefiava a brigada, Agostinho Tienza e Ernesto Lopes Ramos. Do quarto elemento, Casimiro Monteiro, considerado o autor material de um ou mesmo dos dois homicídios, quase não existem declarações.
Rosa Casaco, o chefe da brigada que foi atrás de Humberto Delgado

O local do crime é a base de um pequeno cerro, junto a uma estrada que levava à herdade Los Almerines e próximo da ponte sobre a ribeira de Olivença. Casaco, Tienza e Monteiro aguardaram aqui a chegada de Lopes Ramos, que tinha ido encontrar-se com Delgado em Badajoz (sob a falsa identidade de um oposicionista) para depois o transportar no seu automóvel até este local. Arajaryr teve de ser incluída neste encontro, facto com que ninguém contava.



Rosa Casaco, o chefe da brigada que foi atrás de Humberto Delgado

As declarações de Casaco e Tienza são no essencial semelhantes: Humberto Delgado, que se encontraria desarmado, foi morto a tiro por Monteiro que, segundo Casaco (mas é o único que o afirma), empunhava uma pistola com silenciador. Este inspetor acrescenta que Tienza abateu Arajaryr Campos também com arma de fogo, mas o próprio Tienza afirma que não sabe como morreu a secretária. Sublinhe-se que esta versão é particularmente desculpabilizante para Casaco, pois se perante um assassinato a tiro é difícil reagir a tempo outra coisa é ter-se limitado a assistir imóvel ao homicídio por agressão do general a que ainda por cima se seguiu o estrangulamento da sua secretária.

Casimiro Monteiro, o homem que matou Delgado

Ernesto Lopes Ramos apresenta uma versão radicalmente diferente. Segundo ele o general empunhou logo de início um revólver, ficando com o braço virado para o ar, braço esse que foi agarrado por Monteiro. Enquanto assim estavam Ramos ouviu dois tiros, tendo ficado convencido que foram disparados pelo revólver do general, após o que abandonou o local, em direção a Olivença, conseguindo ainda avistar Arajaryr que gritando se agarrava a Monteiro. Tanto Agostinho Tienza como Lopes Ramos afirmam que a reação de Delgado se deveu a ter descoberto a armadilha.

Casimiro Monteiro, o homem que matou Delgado           

Cruzemos agora estes testemunhos com as provas materiais deixadas no local e com os resultados da autópsia.

Em Los Almerines são encontrados, primeiro por testemunhas locais e depois pela polícia espanhola, três balas por disparar e cinco cartuchos usados, correspondendo a oito projéteis. Nos corpos de Delgado e Arajaryr não são contudo encontradas balas. As perícias realizadas em Espanha apontam para morte causada por uma pancada na nuca (“contusão cerebral e fratura da base do crânio”), no caso do general, e sugerem ter sido a morte da secretária causada por estrangulamento.

A conclusão do acórdão do Tribunal Militar que julgou os agentes da PIDE difere da “tese oficial” da oposição no que se refere à intencionalidade: para o Tribunal tudo partiu de gesto imprevisto de um homem impulsivo, Casimiro Monteiro, e na versão mais frequente tratou-se de execução planeada. Mas ambas dão como verdade adquirida que as vítimas foram mortas a tiro. Torna-se no entanto difícil explicar a articulação entre estes tiros e as diversas marcas de contusões. Delgado e Arajaryr teriam sido espancados depois de mortos a tiro, num ritual macabro difícil de compreender dada a urgência que a brigada tinha de sair daquele local?

Frederico Delgado Rosa, neto e biógrafo do general, tem outra explicação que se baseia por um lado no testemunho de Ernesto Ramos Lopes (semelhante aliás ao que Rosa Casaco apresentou a Silva Pais logo em 1965, na sede da PIDE) e por outro nas perícias médico-legais feitas em Espanha: Casimiro Monteiro terá agredido repetidamente o general ao tentar desarmá-lo, o que explica as contusões menos graves, matando-o depois com um golpe fatal na nuca. De forma equivalente, por estrangulamento, foi morta Arajaryr Campos provavelmente também por Casimiro Monteiro.

As balas e cartuchos encontrados seriam portanto provenientes do revólver do general e não das pistolas dos agentes que, como se torna evidente, não estavam interessados em usá-las, causando alarme nas redondezas. Delgado sim, e por isso disparou, procurando socorro.

Restava agora à brigada da PIDE desembaraçar-se dos corpos. Vão encontrar um local mais a sul, próximo de Vila Nueva del Fresno e a 2 km do posto fronteiriço, conhecido por Los Malos Pasos, onde aproveitam duas fossas naturais abertas no terreno, depositando aí os cadáveres. O de Delgado foi coberto com cal viva para acelerar a decomposição e envolto numa manta. Os dois cadáveres são por fim tapados com paus e pedras. Entretanto o grupo de agentes é avistado por testemunhas locais e procura disfarçar os seus propósitos.

Os agentes da PIDE dormiram nessa noite em Espanha e regressaram depois a Portugal por Rosal de la Frontera, mais a sul. Ao longo dos dias e meses seguintes a PIDE vai procurando apagar vestígios: avisa António Gonçalves Semedo, funcionário da fronteira de São Leonardo, por cujo posto tinha passado para Espanha a brigada da PIDE, para não revelar a verdadeira identidade dos agentes. São destruídos os documentos que o general levava consigo. Os documentos que estavam no quarto de hotel terão sido levados provavelmente pelos membros de um misterioso grupo também alojado no hotel. (Ver pergunta 13. O que foi respondido atrás esgota todas as dúvidas?) e por fim as próprias viaturas. Mas para trás tinham ficado provas materiais, entre as quais o anel com as iniciais HD que o cadáver de Humberto Delgado conservava no dedo e os registos do posto fronteiriço espanhol, através das quais a polícia espanhola estabeleceria facilmente a ligação entre os corpos encontrados em Los Malos Pasos e a sua congénere portuguesa.

Barbieri Cardoso, subdiretor da PIDE
Barbieri Cardoso, subdiretor da PIDE

Agostinho Tienza, membro da brigada que foi atrás de Delgado
Agostinho Tienza, membro da brigada que foi atrás de Delgado

António Gonçalves Semedo, funcionário da fronteira por onde passaram os agentes da PIDE

António Gonçalves Semedo, funcionário da fronteira
por onde passaram os agentes da PIDE
Ernesto Lopes Ramos, outro dos elementos da brigada que foi a Espanha atrás de Delgado

Ernesto Lopes Ramos, outro dos elementos
da brigada que foi a Espanha atrás de Delgado

Pereira Carvalho

Pereira Carvalho
 

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