11. Terá Humberto Delgado sido vítima de um rapto que correu mal ou a PIDE tinha ordem para matar?

Terá Humberto Delgado sido vítima de um rapto que correu mal
ou a PIDE tinha ordem para matar?

A versão mais difundida ao longo dos últimos 50 anos entre os oposicionistas ao Estado Novo defende que a PIDE partiu de Portugal com ordens precisas com vista à eliminação física de Delgado. Há no entanto diversos aspetos que parecem contrariar esta tese.

Comecemos pelos argumentos habitualmente adiantados para a sustentar:
  • A brigada da PIDE levava cal (são encontrados vestígios dela nos cadáveres) e ácido sulfúrico, destinados a tornar irreconhecíveis os cadáveres (do ácido a autópsia não deteta vestígios).
  • A inclusão na brigada de Casimiro Monteiro, havendo vários agentes mais antigos e experientes (Monteiro tinha entrado para a PIDE havia dois meses), só se justifica pelo seu longo historial de violência e assassinatos (que começa muito antes da sua entrada na PIDE) e pela perícia no manejo de armas.
  • A pistola de Monteiro estaria munida de silenciador (contudo só Rosa Casaco o afirma, além de que esse facto parece ser desmentido pelo testemunho de um tratorista que trabalhava ali perto e que afirma ter ouvido um disparo).
  • A PIDE devia sentir-se humilhada com a entrada de Humberto Delgado, disfarçado, em Portugal, aquando do golpe de Beja, sem que ela o tivesse detetado. Foi a partir deste golpe que, segundo afirmações de Rosa Casaco prestadas em Madrid, em 6 de junho de 1974, “surgiu na mente do então inspetor superior da PIDE, Agostinho Barbieri Cardoso, a ideia de neutralização do General Humberto Delgado” (veremos a seguir como Rosa Casaco consegue afirmar o contrário disto noutras ocasiões, o que aliás era vulgar neste agente).
Barbieri Cardoso, subdiretor da PIDE

Barbieri Cardoso, subdiretor da PIDE
  • A possibilidade de o general conseguir realizar um novo golpe era real, pelo menos na perspetiva do Governo português que, por via diplomática, recebia frequentes avisos nesse sentido.
  • Gradualmente Delgado ia assumindo posições anticolonialistas.
  • “O General Sem Medo” continuava a ser incómodo no que respeita à imagem internacional de Portugal já que atraía as atenções para o regime vigente (contudo a descoberta do seu cadáver acabou por agravar este problema).
    Atentados a figuras políticas eram frequentes no ambiente violento daquela época (o atentado planeado não era todavia vulgar no regime de Salazar).
Há no entanto diversos aspetos que parecem contrariar esta tese de homicídio premeditado.
  • O regime português nada ganhava com a sua eliminação física (ganharia todavia alguma tranquilidade na sua imagem internacional, desde que os cadáveres de Delgado e Arajaryr nunca fossem descobertos).
  • Para quê ir a Espanha matar Humberto Delgado quando teria sido mais simples executá-lo nos locais onde esteve exilado, em Argel ou em Roma? (Foram no entanto feitas tentativas no Brasil e talvez o seu falhanço tenha conduzido ao abandono desta via).
  • Porque não foi contratado alguém exterior à PIDE para executá-lo? (Também isto chegou a ser experimentado numa das tentativas de homicídio anteriores orquestrada no Brasil pela PIDE).
  • Delgado estava naquela época completamente isolado nos meios oposicionistas, razão porque não constituía qualquer perigo (já vimos contudo que não parecia ser isso que a PIDE considerava).
  • Até se tinha tornado útil ao regime, nos últimos anos, enquanto desagregador da oposição, ao contrário do que acontecera no período eleitoral e nos anos imediatos.
  • Humberto Delgado não tinha recuperado da cirurgia a que fora submetido na Checoslováquia em janeiro de 1964, como testemunhou Mário Soares em Paris no Verão do mesmo ano e como provam alguns objetos encontrados no Hotel Simancas pela polícia espanhola, pelo que provavelmente não sobreviveria muito mais tempo.
Partindo destas objeções coloca-se uma questão: se a PIDE não pretendia matar o General Sem Medo porque enviou uma brigada de agentes seus a Espanha? É aqui que surge outra hipótese, de que o objetivo era a detenção. Silva Pais defende que o objetivo seria atrair Humberto Delgado a território português fazendo passar Rosa Casaco por um coronel responsável da suposta organização militar revolucionária existente no interior de Portugal. (Note-se contudo que o papel de militar conspirador seria difícil de representar por parte de Rosa Casaco já que o general o conhecia bem.)

Nesta perspetiva, que é a que vinga na tese do acórdão do Tribunal Militar que julgou os agentes da PIDE após o 25 de abril, a operação muda radicalmente de feição quando, perante o gesto de Delgado de sacar da arma, Casimiro Monteiro reage. Morto Delgado a eliminação de Arajaryr Campos ter-se-ia tornado assim inevitável, de forma a não deixar testemunhas.

Isso explicaria então a razão por que:
  • os corpos não foram enterrados imediatamente no local do crime: por se tratar de situação imprevista;
  • essa ocultação foi feita de forma precipitada em Vilanueva del Fresno, com os corpos mal cobertos, de forma descuidada e deixando vários vestígios que foram facilmente encontrados: cápsulas de balas, balas por deflagrar, pontas de cigarro e um boletim do Totobola para o dia seguinte à operação,
  • foi escolhido um local próximo da fronteira portuguesa.
Também neste caso surgem algumas objeções:
  • Casimiro Monteiro era um operacional experiente que poderia ter desarmado o General sem o matar.
  • Se a polícia política portuguesa pretendia deter Delgado porque não pediu à sua congénere espanhola que o fizesse, o que teria sido fácil em Badajoz e seria absolutamente legal já que sobre ele pendia um mandado de captura? Aliás, já no passado o poderia ter feito recorrendo a outras polícias estrangeiras.
  • Os vestígios descuidadamente abandonados no local do crime explicam-se pela necessidade de abandonar com rapidez esse local, porque surgiram testemunhas e porque os disparos podiam alertar outras.
  • A forma precipitada como foram ocultados os corpos justifica-se pela proximidade do anoitecer.
  • As consequências da detenção de Humberto Delgado seriam piores do que executá-lo ou deixá-lo em liberdade. O que significaria manter o General encarcerado ou fazer um julgamento, com toda a publicidade internacional daí decorrente e oferecendo à oposição uma renovada oportunidade de mobilização em sua volta?
Há ainda uma terceira tese que combina as duas hipóteses acima expostas: a PIDE ia preparada para duas possibilidades, rapto e assassinato. É a ideia central defendida pela acusação no Tribunal Militar. (Ver pergunta 9. E o julgamento em Portugal após o 25 de Abril?) Ou então os elementos da brigada tinham duas missões distintas.

É esta a teoria insinuada por Rosa Casaco numa entrevista ao Expresso em 20 de julho de 2006: ele, e provavelmente também Ernesto Lopes Ramos, tinham partido de Lisboa com a missão de capturar Delgado mas Casimiro Monteiro, e talvez Agostinho Tienza, teriam recebido ordens para executar o general. Ordens essas dadas certamente por Pereira de Carvalho ou Barbieri Cardoso, ou mesmo de ambos. Ou seja, Monteiro e Tienza teriam recebido instruções que não correspondiam ao plano oficial. Decorre daqui que Barbieri ou Carvalho podiam estar a trabalhar à margem dos objetivos do Governo e ao serviço de terceiros. Quais? As opções aqui são ideológicas. Para uns poderia ser o Grupo de Argel, apontado como principal interessado na morte do general. Para outros tratar-se-ia de elementos da extrema-direita internacional com os quais a PIDE sempre teve relações privilegiadas, provavelmente a Rede Gládio.

Na miríade de hipóteses que procuram explicar as razões da morte de Humberto Delgado e Arajaryr Campos há ainda quem tenha conjeturado uma derradeira teoria: isolado, sem recursos e humilhado no ambiente hostil da oposição em Argel, o general teria decidido entregar-se às autoridades portuguesas. Torna-se no entanto difícil explicar neste contexto por que razão comprou dois bilhetes de autocarro para dia 15 de fevereiro e os pedidos de informação sobre voos disponíveis a partir de Madrid para Casablanca e outras capitais africanas. Mais ainda: se assim fosse por que motivo esta possibilidade generosamente oferecida ao regime de Salazar não foi aproveitada pela sua polícia que reage brutalmente quando fica diante de Delgado?