13. O que foi respondido atrás esgota todas as dúvidas sobre a morte de Humberto Delgado?

O que foi respondido atrás esgota todas as dúvidas
sobre a morte de Humberto Delgado?

Como é habitual num crime político que envolve diferentes países (Espanha, Itália, Argélia, Portugal), instituições (polícias, grupos políticos) e pessoas (agentes infiltrados, exilados de longa data) a lista de dúvidas torna-se infindável. Limitemo-nos por isso a duas questões.

A primeira tem origem nos testemunhos dos empregados de mesa do Hotel Simancas, em Badajoz, onde Humberto Delgado e Arajaryr Campos se hospedaram. Segundo eles, quando o par almoçava na véspera do seu assassinato entrou um numeroso grupo de pessoas, incluindo alguns homens de porte musculado, que ocupou várias mesas. Por olhares ou gestos percebia-se que entre Delgado e esses homens existia um conhecimento prévio mas só uma vez o general foi visto a falar com um deles. Na manhã seguinte partiram.

No livro de registos do hotel ficaram dois nomes, correspondendo um deles a um homem com aspeto de norte-africano, Hazan Guy Isaac, que estivera presente na reunião realizada em Paris, no Hotel Caumartin. Tratou-se da reunião onde Delgado se encontrou com Ernesto Lopes Ramos e na qual foi combinado o encontro de Badajoz e esse homem, na altura acompanhado de outro, era provavelmente guarda-costas do general. Estaria assim aquele grupo de pessoas em Badajoz para garantir a segurança do general? E porque não o fizeram efetivamente no dia seguinte, 13 de fevereiro? Teriam sido dispensados por Delgado? E porquê? Mais uma vez as teses divergem. Para uns, Delgado consideraria que o mais arriscado - chegar a Badajoz – tinha sido atingido. Logo o general sentir-se-ia seguro e dispensa-os. Uma dispensa tão mais necessária caso ponderasse passar a fronteira acompanhado dos oposicionistas com quem esperava encontrar-se.

A outra questão prende-se com a falta de profissionalismo da PIDE que parece tornar-se evidente em vários pontos das respostas anteriores. Se a “Operação Outono” tinha como objetivo a detenção de Humberto Delgado então esta polícia falhou completamente a sua missão. Mas se o fim era a eliminação física, também falhou, tendo em conta os vários vestígios do crime deixados em solo espanhol.

Esta profusão de vestígios materiais tem sido explicada de duas formas. Podia ser intencional, de forma a facilitar a descoberta do crime, não se explicando contudo por que razão os agentes da PIDE o fariam. Ou então por imposição das circunstâncias: a brigada teve de abandonar rapidamente o local do crime porque o som dos tiros poderia ter sido escutado e causar alarme. Por isso teve de procurar outro lugar para deposição dos corpos. Quando o encontrou já escurecia (em meados de fevereiro os dias ainda são curtos), além de que foi avistada por habitantes locais, pelo que a ocultação foi a possível naquelas circunstâncias, ou seja, bastante precária.

Aceitemos esta explicação como válida mas ela não arreda a imagem de amadorismo que aquela brigada revelou na fronteira espanhola. A PIDE dispôs de mais de dois anos para planear esta operação, à qual atribuiu recursos fora do comum. Contudo:
  • Casimiro Monteiro utiliza um passaporte verdadeiro, de um cidadão britânico, Washdeo Kundanmal Mirpuri. Quando o seu nome é tornado público pelas autoridades espanholas logo a Scotland Yard esclarece que aquele passaporte tinha sido entregue à PIDE pelo seu proprietário aquando da sua passagem por Lisboa, nunca tendo sido devolvido. A partir desse momento um dos suspeitos da justiça espanhola (aquele nome fora registado pelos funcionários da fronteira do país vizinho) fica desde logo associado à polícia portuguesa.
  • A brigada deslocou-se a Espanha em viaturas pessoais dos próprios agentes e embora usassem matrículas falsas os números de motor e chassis eram verdadeiros e foram igualmente registados pelos funcionários do posto fronteiriço. Se houvesse um acidente, se os automóveis fossem apreendidos, tudo se complicaria.
  • No local do crime deixaram um boletim do totobola português.
  • Não retiraram o anel com as iniciais HD do dedo de Humberto Delgado.
  • Os agentes acabaram por dispor de pouco tempo para ocultar os corpos e apagar vestígios porque anoitecia, o que pressupõe mau planeamento horário da operação.
  • Há quem afirme que o local de deposição dos corpos foi “previamente escolhido” por Rosa Casaco. A ser isso verdade teria sido pessimamente escolhido. Na realidade a brigada limitou-se a tirar partido de duas fossas naturais, formadas por um regato, o que poderia permitir que o corpo nela depositado fosse desocultado pelas águas.
  • Não parecem ter levado equipamento adequado que permitisse cavar mais profundamente estas fossas, deixando os corpos quase à superfície. Se tivessem ficado mais enterrados poderia passar muito mais tempo até serem descobertos.
  • A encenação criada em São Leonardo quando o funcionário da PIDE António Semedo, de serviço nessa fronteira, foi apresentar aos seus congéneres espanhóis um dos agentes da brigada como sendo seu colega da polícia acabou por chamar mais a atenção destes.
  • A seguir à notícia do desaparecimento de Delgado, e sobretudo após a descoberta dos cadáveres, os responsáveis da PIDE parecem improvisar, resolvendo os problemas resultantes das pressões de Espanha e do alarme internacional à medida que eles surgem.
Porque demonstrou então a PIDE tanta falta de eficiência? Ao contrário dos operacionais de nações democráticas, sempre sujeitos, nas suas operações encobertas, ao confronto com a Justiça e à curiosidade jornalística dos seus países, os agentes da polícia política portuguesa não tinham de se preocupar com o rasto que deixavam pois perante a sua brutalidade e os seus descuidos, o Governo fechava os olhos e nem os jornais nem a Justiça investigavam. A dada altura, pelos anos sessenta, a PIDE procurou modernizar-se, mas homens como Casaco eram ainda da velha guarda. De um modo geral os agentes não eram mais competentes porque não necessitavam de o ser, até porque a sua recolha de informações era baseada em interrogatórios e estes na tortura. Quando um dia se lhes colocou uma situação mais sofisticada, falharam.

Independentemente do que Salazar sabia sobre esta operação é óbvio que confiou demasiado na competência da sua polícia. Esta não estava preparada nem para prender nem para assassinar um homem como Delgado.