03. Delgado teria ganho as eleições se não existisse fraude eleitoral?

Delgado teria ganho as eleições se não existisse fraude eleitoral?

A convicção de muitos opositores dessa época de que, sem fraude, Delgado teria vencido as presidenciais de 1958 baseia-se provavelmente na dimensão das manifestações de apoio durante a campanha eleitoral. Segundo estimativas apresentadas numa publicação das edições “Avante” posterior ao 25 de abril, só as manifestações do Porto e de Lisboa terão tido em conjunto 500.000 participantes. Ora os resultados oficiais das eleições atribuíram apenas 234.026 votos (23%) ao general contra 750.733 (75%) para o almirante Américo Tomás, candidato do Governo. Como seria possível que os apoiantes de Humberto Delgado tivessem “desaparecido” no dia das eleições?

Para responder a esta perplexidade é preciso ter em conta o que era a realidade eleitoral em Portugal naquela época. Os cidadãos maiores de 21 anos seriam, em 1958, cerca de 5,5 milhões mas destes apenas 1,4 milhões estavam recenseados. Cerca de ¼, portanto, dos adultos.
Sem fraude, Delgado teria vencido as presidenciais de 1958, provavelmente na dimensão das manifestações de apoio durante a campanha eleitoral. Segundo estimativas apresentadas numa publicação das edições “Avante” posterior ao 25 de abril, só as manifestações do Porto e de Lisboa terão tido em conjunto 500.000 participantes.

O número de cidadãos recenseados era muito baixo. A própria mecânica do recenseamento condicionava o perfil dos votantes e o seu baixo número: muitos cidadãos eram recenseados a partir das relações enviadas pelas comissões de freguesia e outros serviços do Estado. Naturalmente quem não fazia parte deste universo do recenseamento oficioso podia requerer o seu recenseamento. Um ato voluntarista que poucos praticavam. Note-se ainda que muitos cidadãos, mesmo que o desejassem não podiam votar pois o direito de voto era condicionado pelas habilitações e valor das contribuições pagas. Este constrangimento da capacidade eleitoral era ainda diferenciado consoante o sexo, sendo agravado no caso das mulheres.

É provável por isso que muitos portugueses que manifestaram nas ruas o seu apoio ao “General sem medo” nem sequer estivessem em condições de votar. Note-se além disso que destes 1,4 milhões de recenseados só terão votado 999 mil cidadãos. A fraude terá passado não tanto por tirar votos a Delgado mas sim por atribuir a Américo Thomaz os votos dos abstencionistas, pelo que provavelmente o número real de votantes ficou abaixo dos 999 mil.

É também curioso ver como um homem do regime avalia o que aconteceu. Marcelo Caetano concede, nas suas “Memórias”, que, “aqui e acolá”, poderá ter havido fraude. Ora “admitindo mesmo, sem conceder, uma larga margem de 15% para essa fraude, o Almirante Américo Thomaz ganhou a eleição, pois resultaria uma relação de 60% – 38%”.

É impossível conhecer hoje a dimensão da fraude praticada no dia das eleições (8 de Junho de 1958) e a votação real. Ainda assim, os resultados oficiais atribuídos a Delgado podiam ser considerados uma vitória pelos seus apoiantes, tendo em conta o ambiente de repressão e intimidação.
É impossível conhecer hoje a dimensão da fraude praticada no dia das eleições (8 de Junho de 1958) e a votação real. Ainda assim, os resultados oficiais atribuídos a Delgado podiam ser considerados uma vitória pelos seus apoiantes, tendo em conta o ambiente de repressão e intimidação. Além disso houve uma vitória complementar da oposição, agora referente à imagem do regime: para grande parte dos portugueses dessa época (e mesmo que isto não corresponda à verdade) Américo Thomaz só conseguiu ganhar porque houve fraude.