04. O regime de Salazar esteve próximo de cair em 1958?

O regime de Salazar esteve próximo de cair em 1958?

Mais do que acreditar em meios legais, como a eleição como Presidente da República, ou mesmo num levantamento popular, tradicionalmente defendido pelos setores mais à esquerda (respondia-lhes “Pois, pois, o povo levanta-se todas as manhãs…”), Humberto Delgado esperava que o ambiente de euforia que a sua candidatura tinha desencadeado no país inspirasse um número significativo de militares a derrubar o regime. Para isso contava também com o ambiente vivido nas Forças Armadas, então muito divididas pela animosidade que Fernando Santos Costa, ministro da Defesa e membro do Governo havia já 22 anos, tinha desencadeado nos meios castrenses.

Aparentemente estavam assim reunidas as condições para a eclosão de um golpe militar durante o período que antecedeu e em que decorreu a campanha eleitoral. O próprio Governo deve ter tido consciência da perigosidade da situação e mobilizou durante a campanha eleitoral meios excecionais, entregando a um comando único chefiado por Santos Costa que incluía não só a PSP e a GNR mas também as Forças Armadas, a missão de reprimir manifestações e reuniões, que se traduziu em cargas policiais e feridos entre a população. É possível que esta inclusão dos militares, chamados a participar em ações de repressão contra civis, atividade até aí da exclusiva responsabilidade das forças policiais e paramilitares, tenha agudizado ainda mais o ambiente nos quartéis.

As ambicionadas revoltas militares até chegaram a ser planeadas mas nunca chegaram a eclodir: ainda em 1958 há duas tentativas falhadas de revolta, no ano seguinte uma outra (revolta da Sé) e em 1961 uma derradeira tentativa de golpe encabeçada pelo próprio ministro da Defesa, General Botelho Moniz. Mas logo tocaram a reunir os clarins em resposta aos primeiros ataques da UPA no Norte de Angola, mobilizando as tropas e adiando por muitos anos (com exceção do assalto ao quartel de Beja) qualquer tentativa de derrube armado do regime.

Mas não se pode ignorar que Humberto Delgado criara no entanto uma situação nova. Até aí Salazar convivera com grupos de influência (monárquicos, republicanos conservadores), gerindo conflitualidades, ou então confrontara-se com forças políticas irredutíveis (comunistas, republicanos de esquerda), em relação aos quais usava os meios de repressão considerados adequados. Desta vez um antigo apoiante tinha pretendido configurar um duelo pessoal.

Não se sabe se Salazar o terá entendido assim. Em privado, segundo testemunhos, parecia lamentar-se do caminho que tinha seguido um colaborador tão próximo como o piloto-aviador Humberto Delgado. Mas nem por isso o seu Governo deixou de o demitir de todos os cargos oficiais. Em 1960, Delgado seria mesmo excluído da Força Aérea, deixando de receber o soldo de militar.

Até à sua morte Delgado nunca deixou de acreditar ser a ação militar, eventualmente com o apoio de civis armados, a única solução para fazer cair o regime. Em abril de 1974 a História dar-lhe-ia razão.