05. Porque acaba o general incompatibilizado com a maioria dos opositores ao regime?

Porque acaba o general incompatibilizado com a maioria dos opositores ao regime?

A partir de abril de 1959 Humberto Delgado está já a viver Brasil, contratando no fim desse ano Arajaryr Campos como secretária, e introduz uma azáfama nas atividades da oposição muito superior ao habitual. De Portugal traz consigo o MNI, Movimento Nacional Independente, criado no ano anterior, mas logo em janeiro de 1960 lança o DRIL, Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação, por acordo com o Governo espanhol no exílio, e três anos depois preside à FPLN, Frente Patriótica de Libertação Nacional, que federou quase toda a oposição, com predomínio dos comunistas. Mas no verão de 1964 a rutura com esta frente é já total e irreversível. Delgado fica então reduzido a um pequeno número de apoiantes, nem todos confiáveis, com os quais ainda constitui outra FPLN (troca a designação “Patriótica” por “Portuguesa”) em outubro de 1964. Como passara o general de líder unitário a cavaleiro solitário na luta contra o regime?

A explicação mais comum prende-se com a sua “personalidade forte”, que tanto agrega como desagrega e que facilmente entra em choque com outras de perfil semelhante (caso de Henrique Galvão). Mas a culpa talvez não fosse apenas sua porque também a oposição sempre revelou essas duas pulsões, gregária e pulverizadora. Mais importante contudo era a resistência que os seus desejos de ação armada imediata encontrava perante a postura cautelosa da maioria dos opositores, tradicionalmente desconfiada de golpes militares que não podia controlar e que, para os setores mais à esquerda, estavam no zénite ideológico do levantamento de massas que defendiam.

Se fizermos um balanço destes seis anos de exílio temos de reconhecer, em primeiro lugar, que Humberto Delgado conseguiu que pela primeira vez a oposição a Salazar tivesse um rosto reconhecido internacionalmente, que os jornais europeus e americanos associavam ao combate a um ditador que se mantinha anacronicamente no poder passada a segunda guerra (até Abril de 1974 a figura de Cunhal circunscrevia-se aos países de leste e a de Soares, que se afirmaria mais tarde, nunca teve enquanto exilado a mesma dimensão).

Paralelamente nunca como neste período as ações dessa oposição se manifestaram em atos tão espetaculares. Em janeiro de 1961 foi o assalto ao paquete Santa Maria, após o qual Delgado entra em rutura com Henrique Galvão. Um ano depois o general dá entrevistas onde conta como esteve em Portugal durante duas semanas, a acompanhar a tentativa de golpe no quartel de Beja, sem que a polícia política o detetasse. Para o provar mostrava os carimbos da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) colocados no passaporte falso que usou e as fotografias tiradas em vários locais de Lisboa. Fotografias que para alguns terão levado a PIDE humilhada a decidir neutralizar o general.