06. O que levou Humberto Delgado a Badajoz, atraído por aquilo que tudo indicava ser uma armadilha?

O que levou Humberto Delgado a Badajoz,
atraído por aquilo que tudo indicava ser uma armadilha?

Em outubro de 1964, Humberto Delgado está a ser operado numa clínica em Roma. É já a terceira cirurgia a que se submete em menos de dois anos e delas resultaram cicatrizes que até ao fim da sua vida irão recusar-se a sarar. Nos últimos anos tinha também conhecido períodos de grandes dificuldades económicas. Estava além disso de relações cortadas com os principais grupos oposicionistas, mesmo aqueles que sempre estiveram ao seu lado desde 1958 (Artur Andrade, por exemplo, que o convidara a candidatar-se à Presidência, considerara o assalto ao Santa Maria e a entrada em Portugal por ocasião do golpe de Beja aventuras irresponsáveis). Mas para Delgado a ideia de ação armada a curto prazo, que antes era uma convicção estratégica, agora é já uma imposição ditada pela urgência. Ou pelo desespero. É o tudo por tudo, que o leva a assumir riscos cada vez maiores. A qualquer aviso que lhe fosse feito sobre os perigos de uma armadilha, mesmo que o tivesse em consideração, já não podia obedecer-lhe.

O que entretanto Delgado não sabia era que o homem que organizara a sua entrada na clínica de Roma, Ernesto Bisogno, era alguém das relações do subdiretor da PIDE, Barbieri Cardoso, tal como ignorava que o oposicionista “professor” Mário de Carvalho, que Bisogno lhe apresentara, era um informador daquela polícia, com o pseudónimo “Oliveira”. Carvalho, que se tornara representante de Delgado em Itália no verão de 1961, seduz o general com a existência de uma organização em crescimento, formada por recentes dissidentes, alguns deles militares, interessados numa ação revolucionária e da qual dá dados fantasiosos (210 aderentes em Grândola, 491 em Setúbal) que só a impaciência de Delgado explica que tenha aceite como verosímeis (nem espera, aliás, que a existência desta estrutura seja confirmada por apoiantes seus no interior do país). Ao mesmo tempo que Carvalho lhe acena com financiamentos e uma (simulada) compra de armas vai reforçando a má imagem que o general já tinha da maioria dos oposicionistas, aumentando-lhe o isolamento.

Desde a partida de Humberto Delgado para o exílio que a polícia política portuguesa o vigiava, através de informadores que procuravam infiltrar-se nos meios oposicionistas. Mas é o ano de 1962 que se torna decisivo. É não só o ano que começa com a humilhação para PIDE do golpe de Beja como também aquele em que ascende ao poder nesta polícia o inspector Barbieri Cardoso que irá dar novo alento à “Operação Outono”. No quadro desta operação, centrada em Delgado, são utilizados meios técnicos e financeiros muito superiores ao que era comum na PIDE.

E assim, dois anos depois, o cerco a Delgado está montado: em 27 de Dezembro de 1964, no Hotel Caumartin, em Paris, o general encontra-se com Mário de Carvalho e um representante civil da organização revolucionária existente em Portugal, Ernesto Castro Sousa, que lhe diz poder contar com 4600 homens. Marca-se o local e a data para um encontro com militares vindos do interior de Portugal. Castro e Sousa (afinal o subinspetor Ernesto Ramos Lopes) iria encontrar-se com o general em Badajoz. Mais tarde será marcada a data, dia 13 de fevereiro. Estava tudo combinado. E Delgado orgulhava-se de ser sempre pontual.