07. O que sabia a polícia espanhola?

O que sabia a polícia espanhola?

No dia 11 de fevereiro de 1965, Humberto Delgado entra em território espanhol utilizando um passaporte falso em nome de Lorenzo Ibañez, nascido no Brasil, de 58 anos. Ia companhado de Arajaryr Campos, que exibiu um passaporte brasileiro verdadeiro.

Em Badajoz o comportamento do general foi tudo menos discreto, tendo sido visto em locais públicos tão expostos como os correios, a estação dos caminhos-de-ferro ou a Oficina de Turismo, recolhendo informações e fazendo perguntas em várias línguas. Também o vestuário vistoso de Arajaryr contribuiu para que o par se salientasse na pacatez estremenha de Badajoz.

Durante muitos anos predominou uma versão segundo a qual a polícia espanhola estava perfeitamente a par desta viagem. Um coronel da Guardia Civil teria até seguido os passos do general a partir de Argel, apenas lhe tendo perdido a pista em Algeciras. As autoridades do país vizinho sabiam assim da sua presença em Badajoz antes do dia 13, data da sua morte, admitindo-se que só nesse dia lhe perderam o rasto.

Decorria daqui que a polícia de Franco poderia, ou deveria, ter procedido à detenção do general, já que sobre ele pendia um mandado de captura, e que se não o fez foi em resposta a uma solicitação da sua congénere portuguesa nesse sentido. Esta versão tem contudo uma consequência: mesmo aceitando o pedido português, a Guardia Civil e a Seguridad ficariam alerta. Assim, seria uma loucura a PIDE enviar de seguida uma brigada àquele país para assassinar o general, desencadeando inevitavelmente as fúrias, justificadas, das autoridades espanholas que logo perceberiam o logro de que tinham sido vítimas.

Há contudo uma versão diferente, apresentada por Frederico Delgado Rosa, neto e autor de uma biografia do general, que se apoia em documentos dos arquivos espanhóis: a polícia do país vizinho desconhecia em absoluto a entrada de Delgado no seu país e não recebeu qualquer informação da PIDE nesse sentido. Apenas no dia 15 de fevereiro, passadas 48 horas sobre o duplo assassinato, recebeu as primeiras notícias acerca da viagem do general. Sublinhe-se que esta é a versão que se adequa melhor à tese de morte premeditada de Humberto Delgado: a PIDE pretenderia ir a Espanha, executar Delgado e regressar sem que a sua congénere se apercebesse. A ser isto verdade, terá a polícia portuguesa pesado os riscos? Tendo em conta o curso dos acontecimentos parece que não os pesou suficientemente.